O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos
mais cedo ou mais tarde, todos sentimos um desconforto. por estupidez, acomodamo-nos. só voluntariamente o podemos interromper
junho 24, 2008
[51] dixit .11. O que há em mim é sobretudo cansaço
abril 28, 2008
[48] dixit .10. o meu pior inimigo esconde-se na minha cabeça
[...]
Quando não estão a rir-se de mim, as pessoas ignoram-me e agem como se eu aqui não estivesse. Por isso me é permitido observar os amores clandestinos, os gestos furtivos, os corpos abandonados ao cansaço, os homens que vêm fumar ao relento para meditar olhando as estrelas e o relâmpago de morte que, às vezes, atravessa os olhares, mesmo os olhares daqueles que enganam a morte com sorrisos alvíssimos e absolutos. Aqui onde estou, debaixo do meu cobertor, vejo sem ser visto ou, pelo menos, sem que aqueles que eu observo possam ter a certeza se eu os vejo ou não. Isto, parece-me, constitui um modo radical de liberdade e diverte-me sinceramente este jogo que vamos praticando: umas vezes estou a ver o que fazem e a ouvir o que dizem, outras vezes ignoro-os e concentro-me na leitura metódica dos livros da velha biblioteca que arrematei num leilão antes de partir para a ilha.
Quando termino uma pilha de livros, chamo uma das crianças que brincam com a espuma das ondas e ofereço-lhe os volumes para que faça deles o que quiser. Apenas exijo que vão lá acima, à casa do monte, e me tragam mais livros. Preciso absolutamente de continuar a ler (pelo menos enquanto é dia e posso enxergar alguma coisa), sobretudo agora que consegui desaparecer e chego a beneficiar de uma espécie de silêncio.
As noites, porém, são difíceis. Não posso ler e a voz enlouquecida que se alojou dentro de mim insiste em modificar-me com conselhos lúgubres e ideias extravagantes, coisas em que homem nenhum devia pensar. Eu luto contra essa voz, tento resistir-lhe e aplacá-la com o sono, mas tenho dormido pouco e mal. Conto carneiros e fecho os olhos com força, desejando que a manhã chegue depressa e, com ela, a luz que me permite ler e escrever. Desapareci, sim, sou praticamente o zero à esquerda que pretendi ser, e agora tenho todo o tempo do mundo. Mas só nos livros encontro o caminho que me leva para longe do meu pior inimigo: aquele que se esconde na minha cabeça.
in 'Zero à Esquerda', Manuel Jorge Marmelo
O Prazer da Leitura, ed conjunta FNAC/ TEOREMA, Lisboa, 23 Abril 2008
abril 21, 2008
[47] dixit .9. a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se
silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as
conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se
chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.
José Luís Peixoto
novembro 15, 2006
[44] dixit .8. "Red rose, proud rose, sad rose of all my days"
O verso
O pénis e o que se faz com ele, a vagina, o ânus, e o resto: puros acessórios, a pequena mala de viagem do organismo - significativos são os lugares. E não é: em que lugares o teu corpo foi visto, é sim: em que lugares o teu corpo viu.
Por exemplo: uma torre como no sistema panóptico das prisões. É necessário citar Foucault: alguém escondido dos outros vigia: eu vejo tudo e tu de mim não vês nada.
Claro que há várias categorias na cobardia, por exemplo: apontar uma arma à cabeça e dizer: se os meus filhos morrerem eu mato-me, impeçam os meus filhos de morrer.
Mas os dois filhos, uma menina de quinze, um rapaz de cinco, são doentes terminais, e os médicos mesmo que os doentes fossem ricos, nada poderiam fazer.
O homem, um pai, de quarenta e cinco anos, a barba por fazer, cabelos compridos, um velho pai que aponta uma pistola à própria cabeça e diz: ou fazem isto ou disparo, esse homem tem - nesse instante - tanto poder como medo.
- Ou curam os meus filhos ou disparo sobre a minha própria cabeça.
A visão de uma radiografia aos dentes assusta: há manchas negras até naquilo que a nossa pele tem de mais parecido com a tinta branca dos pintores. Temos manchas até no cérebro, é um ataque aos nervos, um navio derrama petróleo sobre o cérebro e há animais mortos e arbustos negros.
- Consegues pensar ainda?
- Sim.
(Como provar que o outro consegue ainda pensar?)
- Fala comigo.
- Que queres que diga?
- Tu estavas sempre a repeti-lo, lembras-te?
- Não.
- As tuas mãos, sentes as mãos?
A mancha negra no cérebro é assim, negra e como a cobra - toda ligada; só que não se mata como se matam as cobras.
- Sentes alguma coisa na ponta dos pés?
- Na ponta dos pés?
- Na ponta dos pés, sim.
- Na ponta dos pés?
Dou-te um conselho, como os idiotas.
Liga a televisão e põe o teu avô em frente da televisão, ele gosta das imagens, a piscarem, a luz e depois a luz de outra cor, está sempre a mudar a luz, o teu avô gosta disso; e tu sai de casa, ainda podes ser feliz, não tens idade para cuidar de velhos.
- Eu digo-te o verso, o início: "Red rose, proud rose", lembras-te?
- Não me lembro.
- Sentes o pé? Sentes a cabeça? Consegues pensar?
- Não.
- Eu digo-te o verso: "Red rose, proud rose, sad rose of all my days". Estavas sempre a repeti-lo.
Gonçalo M. Tavares - O Material das Coisas
in MAGAZINE ARTES, nº45, Novembro 06
by: William Butler Yeats (1865-1939)
Red Rose, proud Rose, sad Rose of all my days!
Come near me, while I sing the ancient ways:
Cuchulain battling with the bitter tide;
The Druid, grey, wood-nurtured, quiet eyed,
Who cast round Fergus dreams, and ruin untold;
And thine own sadness, whereof stars, grown old
In dancing silver-sandalled on the sea,
Sing in their high and lonely melody.
Come near, that no more blinded by man's fate,
I find under the boughs of love and hate,
In all poor foolish things that live a day,
Eternal beauty wandering on her way.
Come near, come near, come near -- Ah, leave me still
A little space for the rose-breath to fill!
Lest I no more hear common things that crave;
The weak worm hiding down in its small cave,
The field-mouse running by me in the grass,
And heavy mortal hopes that toil and pass;
But seek alone to hear the strange things said
By God to the bright hearts of those long dead,
And learn to chaunt a tongue men do not know
Come near; I would, before my time to go,
Sing of old Eire and the ancient ways:
Red Rose, proud Rose, sad Rose of all my days.
surching about roses...
http://www.poemhunter.com/quotations/rose/
novembro 07, 2006
[43] dixit .7. meias verdades
As relações humanas são reguladas pelo mesmo princípio de indeterminação da mecânica quântica: sabes como correram as coisas só depois de ter cumprido uma medida, quer dizer, depois de ter intervindo no fenómeno e, ao intervir, modificaste-o. Já a pretensão de saber, a pergunta, altera a relação. De qualquer maneira, a verdade é sempre um artefacto gerado pela tua acção que fez com que as coisas fossem «ou isto ou aquilo»."
in "Conflito entre sexo e amor, 3. Exclusividade", Francesco Alberoni, SEXO E AMOR, Bertrand Editora, Chiado 2006, p.200
___
a capa da edição portuguesa foi horrivelmente escolhida e não corresponde à da imagem
outubro 31, 2006
[42] dixit .6. aprisionar a prisão
Não é o amor a incarnação mesma da espontaneidade?
Não é o amor fogo que consome alma e corpo, que tudo corrói, numa cegueira que se não sabe de onde vem ou para onde vai?
Não é o amor fulguração e fascínio, fogueira de corações e arrebatamento de sentidos?
Seria tudo isso, é certo; assim o haviam cantado, pelo menos, os poetas, muitos deles do seu tempo, como Propércio, Tibulo, até, mesmo, Virgílio, e outros antes dele, como Catulo. Seria tudo isso, sim; e, também, submissão e entrega, prazer e prisão, escravatura e júbilo. Contraditório, portanto, paradoxal.
Mas, se assim era, será que podia o amor ser ensinado, será que podiam amestrar-se os amantes, como quem se assenhoreasse, pouco a pouco, de uma técnica que permitisse, no fundo, aprisionar a prisão?
Ovídio, poeta latino do séc. I a.C., acreditava que sim.
Se muitos, antes dele, lograram servir-se da poesia para ensinar a cultivar campos, como o poeta grego Hesíodo, ou a tratar da terra e dos animais, como o seu contemporâneo Virgílio, ou, mesmo, a dominar a técnica de fazer versos, como esse outro poeta do seu tempo, Horácio, se tantos outros foram capazes de deitar mão da poesia para ensinar múltiplas artes, entendia Ovídio que também podia, ele que conhecia de perto o amor, ousar ensiná-lo. Porque acreditava, por convicção e experiência, diversa, por certo, das experiências dos outros poetas, que o amor, como tudo na vida, obedece a uma técnica e que essa técnica, como todas as técnicas, pode ser ensinada (e aprendida). Com proveito.
(...)"
in Introdução, OVÍDIO, ARTE DE AMAR, Introdução, Tradução e Notas de Carlos Ascelso André, Livros Cotovia, Lisboa, 2006
____
(as passagens a negrito são da minha responsabilidade e não constam na obra mencionada)
outubro 16, 2006
[41] dixit .5.
TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe
[quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por
[gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos
[homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver
[tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos
[certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmo sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conqusitá-lo, ainda que tenha
[razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que
[Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de
[uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que
[comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas;
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses
[nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada
[disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam
[o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de
[coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério tão certo como o sono de
[mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem
[outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de
[estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança e o Dono da
[Tabacaria sorriu.
Fernando Pessoa, TABACARIA por Álvaro de Campos, Editorial Nova Ática, Lisboa, Junho 2006
junho 06, 2006
[38] dixit .4.
três cotovelos em alberto caeiro
Primeiro prenúncio de trovoada de depois de amanhã.
As primeiras nuvens, brancas, pairam baixas no céu mortiço,
Da trovoada de depois de amanhã?
Tenho a certeza, mas a certeza é mentira.
Ter certeza é não estar vendo.
Depois de amanhã não há.
O que há é isto:
Um céu de azul, um pouco baço, umas nuvens brancas no horizonte,
Com um retoque de sujo embaixo como se viesse negro depois.
Isto é o que hoje é,
E, como hoje por enquanto é tudo, isto é tudo.
Quem sabe se eu estarei morto depois de amanhã?
Se eu estiver morto depois de amanhã, a trovoada de depois de amanhã
Será outra trovoada do que seria se eu não tivesse morrido.
Bem sei que a trovoada não cai da minha vista,
Mas se eu não estiver no mundo,
O mundo será diferente —
Haverá eu a menos —
E a trovoada cairá num mundo diferente e não será a mesma trovoada.
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.
Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
Não desejei senão estar ao sol ou à chuva —
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.
Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão —
Porque não tinha que ser.
Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.
Quando a erva crescer em cima da minha sepultura,
Seja este o sinal para me esquecerem de todo.
A Natureza nunca se recorda, e por isso é bela.
E se tiverem a necessidade doentia de "interpretar" a erva verde
sobre a minha sepultura,
Digam que eu continuo a verdecer e a ser natural.
[ imagem - Alberto Caeiro, pormenor do mural de Almada Negreiros na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1958) ]
____________
Pretenso mestre dos outros heterónimos e do poeta ortónimo, Caeiro pretende surgir-nos como um homem de visão ingénua, instintiva, gostosamente entregue à infinita variedade do espectáculo das sensações, principalmente visuais, por hipótese desfrutáveis por um rural clássico reinventado. Em teoria, Caeiro defende que o real é a própria exterioridade, que não carece de subjectivismos. Proclama-se antimetafísico, é contra a interpretação do real pela inteligência porque, no seu entender, essa interpretação reduz as coisas a simples conceitos. Caeiro é fácil de reconhecer por um certo objectivismo visualista que faz lembrar Cesário Verde, pelo interesse pela Natureza, pelo ritmo lento. (in Edições Sebenta)
maio 01, 2006
[36] :-)
Ticking away the moments that make up a dull day
You fritter and waste the hours in an offhand way
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way
Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain
And you are young and life is long and there is time to kill today
And then one day you find ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun
And you run and you run to catch up with the sun, but it's sinking
Racing around to come up behind you again
The sun is the same in a relative way, but you're older
Shorter of breath and one day closer to death
Every year is getting shorter, never seem to find the time
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in a quiet desperation is the English way
The time is gone, the song is over, thought I'd something more to say
Home, home again
I like to be here when I can
And when I come home cold and tired
It’s good to warm my bones beside the fire
Far away across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly spoken magic spells
[Time, Pink Floyd]
Is there anybody in there?
Just nod if you can hear me
Is there anyone at home?
(...)
When I was a child I had a fever
My hands felt just like two balloons
Now I've got that feeling once again
I can't explain, you would not understand
This is not how I am
I have become comfortably numb
[comfortably numb, Pink Floyd]
Isto nunca mais vai acontecer na sua vida.
fevereiro 24, 2006
[30] dixit .3.
Divagações Quanto a Futuro
Prof. Agostinho da Silva
Revista de Educação, Número 2, Volume 1 (1987), pp 102.
A Sétima Idade de Fernão Lopes, o Reino do Espírito Santo de nosso Povo, a Ilha dos Amores de Camões, o Quinto Império de Vieira e o Sacrifício da vida pela Vida, que é esta a grande biografia de Pessoa - tudo é isto sob o ponto de vista prático, de cuidado, a um tempo, pelo quotidiano e pelo futuro, o desejo que temos nós e connosco toda a humanidade, apenas em parte distraída pelo que ainda é preciso construir, em parte, como em muita África, muita América Latina, muita Ásia, por uma quieta espera o que fatalmente há-de chegar - tudo isto é, ia eu dizendo, o apetite de que o mundo, cuja massa vem da garganta de Olduvai, levedada pelo sentido egípcio do além-mundo, pela filosofia grega, mais de perguntar do que de responder, e é isto filosofia, pela burocracia e rede de estradas dos romanos e pelos laços de audácia, saber e desvergonha com que Portugal atou o globo e o pôs em seu regaço, que a massa do mundo, pois, se renove e finalmente ofereça às fomes de espírito e aos apetites de corpo o pão, nutritivo, abundante e alegre que todos queremos.
Acho que para tal se tornava necessária nova levedura - e ela aí está em nossa gamela para que a empreguemos com científico cuidado, bom governo de casa e confiança em que a disputará a freguesia: chama-se desemprego e já a palavra se usa só por hábito do que havia porque, na realidade, não há desempregados: o que existe cada vez menos, e a carência só pode aumentar por maiores que sejam as promessas de governantes, é emprego.
Coisa curiosíssima, a nossa economia que toda é de capitalismo, só que dum lado mono, do outro pluri-capitalista e que avançou na técnica sempre no afan de produzir mais e mais, até hoje cercada pelos excessos e enjoada pelo supérfluo, se precipitou numa situação de que só pode sair pela eliminação física desses primeiros homens de tempo livre, dessa amostra da humanidade do criador, poético ócio, e a isto se oporiam naturalmente todos os humanitários, mesmo que, por prudência, se declaram apenas humanistas, ou então, não querendo matar os tais desempregados, por mudanças radicais na economia, na instrução ou sistema escolar, que raramente é educativo, e na organização política.
Quanto à primeira, tudo é muito simples de enunciar, mas de muito longa e difícil execução: trata-se de estabelecer uma economia de distribuir quando tudo se tem empenhado, e muito bem, na tarefa de produzir; tem de se dar comida, não de vender comida, tem de se abrir casa, não de se alugar casa, tem de se curar de graça, não de exigir honorários médicos, diárias de hospital e de a cada passo aumentar o preço das pílulas; cobrar e lucrar têm de ser verbos arcaicos; e prever, dar e amar passarão, esses, a ser verbos que não brilhem apenas nas biografias dos santos. E quero eu ver o tempo que tal vai consumir quando todos somos condicionados para o contrário, para o ganho e o depósito no banco, para, às vezes, a escassa esmola, que ainda tomamos como virtude, sendo que santo, no melhor dos casos, é para se lhe rezarem, não para o imitarem.
Pelo que respeita à tal instrução, tudo começa pelo pitoresco de serem todas as escolas de formação profissional quando o que vem aí é o desaparecimento das profissões; como devem para cumprir o seu papel de formarem profissionais dão as nossas escolas de hoje atenção bem pequena ao que pode ser alimento ou técnica para que se exprima a capacidade criadora do aluno, quando a verdade é que todos nós nascemos poetas, ou do verso ou da pintura, ou da relação humana, ou da matemática, ou da mística, ou da carpintaria, ou da vagabundagem para conhecermos a terra, ou de nos estirarmos de costas para contemplar o grande céu sobre nós. Acontece por outro lado, e como se sabe há séculos, que nem só de pão vive o homem o que é confirmado pela alta taxa de mortalidade dos reformados, mesmo que tenham boas pensões, vai ser preciso que haja ensino, mas a pedido do freguês, porque também acabará a escolaridade obrigatória, que só se compreendia quando a nossa vida foi de serviço civil muito parecido com o militar com todo o risco de vida e muito mais tempo de quartel. E já é um excelente sinal que entre nós esteja pensando o Governo em estabelecer escolas-cultura em que, a par do currículo adoptado, possam os alunos juntar-se em grupos interessados nesta ou naquela actividade de criação artística, pesquisa científica, observação sociológica ou até aventura metafísica não vão os adultos julgar que têm para ela mais capacidade do que criança; antes iria eu pelo contrário.
Resta o que se refere a política. Se a sociedade vai ser, quando livre da escravidão de produzir, com a produção a cargo dos amadores ou por classes chamadas à produção como hoje se recrutam para as forças armadas, fraternidade de poetas à solta, penso que não haverá necessidade de os mandar a isto ou aquilo, de os limitar de algum modo em seus movimentos, de os prender em artigos de código cujo conteúdo é afinal só de sinais de tráfico, mas com, em geral, tão confusas luzes que nem o mais esperto e treinado olhar é capaz de se desembaraçar sem atropelos nem choques, voltaríamos à grande política medieval portuguesa de haver um poder central mais de coordenação do que de mando, dele se tendo o país afastado para que a empresa dos descobrimentos se pudesse realizar. Talvez então os grandes descobrimentos que há a fazer para o futuro e que levem a construir céu na terra ou a, dentro de cada um, não distinguir entre céu e terra, partam de uma base de pura iniciativa individual, sem dirigentes governamentais, sem programas a cumprir, no pleno amor da liberdade; e liberdade no amor, claro está.
[Olga Pombo: opombo@fc.ul.pt]
fevereiro 20, 2006
[27] dixit .2.
janeiro 13, 2006
janeiro 04, 2006
[3] sentimentos; um certo estado de corpo
"(...) um sentimento é uma percepção de um certo estado de corpo, acompanhado pela percepção de pensamentos com certos temas e pela percepção de um certo modo de pensar. Todo este conjunto perceptivo se refere à causa que lhe deu origem. Os sentimentos emergem quando a acumulação dos pormenores mapeados no cérebro atinge um determinado nível. (...)
A minha hipótese não é compatível com a ideia de que a essência dos sentimentos, ou a essência das emoções, quando emoções e sentimentos são considerados sinónimos, é simplesmente uma colecção de pensamentos com certos temas ligados a um certo rótulo emocional, como, por exemplo, pensamentos de situações de perda em relação a tristeza, e referidos ao objecto que os causou. Julgo que essa ideia tradicional sobre aquilo que são os sentimentos, sem referência ao estado do corpo, esvazia irremediavelmente o conceito de sentimento e de emoção. Se os sentimentos fossem meros agrupamentos de pensamentos com certos temas, como seria possível distingui-los de quaisquer outros pensamentos? Como seria possível manter a individualidade funcional que justifica os sentimentos de emoções como um processo mental particular? A minha ideia é de que os sentimentos de emoções são funcionalmente distintos porque a sua essência consiste em pensamentos sobre o corpo surpreendido no acto de reagir a certos objectos e situações. Quando se remove essa essência corporal, deixa de ser possível dizer «sinto-me feliz», e passamos a ser obrigados a dizer «penso-me feliz». E é evidente que se passássemos a falar da nossa felicidade com a expressão «penso-me feliz», seria legítimo perguntar por que razão os pensamentos são «felizes». Se não tivéssemos a experiência do corpo em estados aprazíveis e que consideramos «bons» e «positivos» no enquadramento geral da vida, não teríamos qualquer razão para considerar nenhum pensamento como feliz ou triste.
António Damásio, AO ENCONTRO DE ESPINOSA, As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, Círculo de Leitores, Lisboa, 2003, págs 79-80